o-testamento-de-maria c113 de julho de 2013
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A Companhia das Letras está lançando no Brasil o livro O Testamento de Maria, do escritor irlandês Colm Tóibín, com tradução de Jorio Dauster e preço sugerido de R$ 29,00. O autor usa uma linguagem elegante, respeitosa, para contar a história de Maria vivendo no exílio, no Éfeso, vinte anos depois da crucificação de Jesus Cristo. Com um detalhe: ela ainda não acredita que seu filho seja o Messias. Esse, aliás, foi o motivo da resistência dela em dar sua versão pessoal da morte do filho para dois apóstolos, empenhados em escrever o Novo Testamento.

Protegida por João, que arranja para ela uma casa como refúgio, Maria, viúva e precocemente envelhecida, recusa-se a aceitar a narrativa dos discípulos, descritos por ela como “um bando de desajustados” tentando criar um mito. Em Éfeso, ela é apenas uma mulher solitária, que emerge no livro como uma personagem de estatura moral comparável ao monumento erigido pela Igreja Católica após o primeiro concílio de Éfeso, em 431. Nele, a Virgem Maria foi declarada mãe de Deus e não apenas da natureza humana de Cristo. Menos dogmático, o autor irlandês mostra Maria como uma mulher comum, que não fica aos pés da cruz como a retratam os pintores ocidentais.

A versão do livro sugere que Maria teria fugido, com medo de ser a próxima vítima, acossada que estava por dois fariseus. Lá pelo fim, depois de muito duvidar da natureza divina do filho, ela, num momento de clarividência diante da morte, só lamenta não ter tido a chance de evitar seu martírio, como, aliás, lamentaria qualquer mãe. Devolver a humanidade a Maria não chega a constituir um escândalo, embora alguns católicos possam ficar incomodados com a recusa de Maria em pronunciar o nome do filho revolucionário, que não reconhece como a criança que criou. Descrente, ela não se sente à vontade sequer para entrar na sinagoga. Prefere, em Éfeso, retomar a antiga crença na deusa pagã Ártemis, a casta caçadora desapegada da figura masculina.

colm-toibin in1Apesar disso, o autor garante que não desejou criar um mito feminista nem provocar um novo debate sobre o lugar que Maria ocupa na mitologia cristã. Ele escreve como um humanista. Impressionado com uma tela de Tintoretto (A Crucificação), resolveu escrever sobre o maior ícone feminino da cristandade. Ele admitiu que, a exemplo do pintor, queria criar algo grandioso, não operístico, mas realmente trágico como as clássicas peças gregas. Assim, o leitor tem à frente uma figura como Medeia, diferente da Virgem dócil e submissa consagrada pela iconografia e a literatura ocidentais. Ela parece mesmo duvidar do poder das palavras do filho, como na passagem em que relembra a transformação da água em vinho durante as bodas de Canaã. Ela não teria pedido o milagre e acredita que tudo não passou de um truque esperto num casamento da Galileia.

O autor faz Maria descer do céu e encarar um mundo medíocre, onde reinam a paranoia e o medo. Essa história, contada do ponto de vista de uma mãe eclipsada pelo filho não deve, entretanto, ser lida como um ataque insolente. O autor esperava que a igreja irlandesa reagisse ao livro, mas os católicos do seu país simplesmente ignoraram a obra. O próprio autor adaptou o romance para o teatro, cuja apresentação na Brodway, em Nova York, fez muito barulho. No espetáculo teatral, Maria é representada pela atriz Fiona Shaw (dos filmes Harry Potter). A peça provocou protestos dos católicos nova-iorquinos, que interditaram a Rua 48 no dia da estreia.

 

 


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