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Peça de Lope de Vega escrita no início século XVII é achada na Espanha

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Uma cópia manuscrita de uma obra inédita do dramaturgo espanhol Félix Lope de Vega, intitulada Mujeres y Criados (Mulheres e Criados, na tradução livre), foi encontrada por especialistas na Biblioteca Nacional da Espanha. A comédia foi escrita há quatro séculos e era dada como perdida pelos catálogos literários do país até então.  O responsável por identificar o manuscrito foi Alejandro García Reidy, professor da Universidade de Syracuse e membro da Prolope, grupo de especialistas de obras do escritor, formado na Universidade Autônoma de Barcelona.

De acordo com o professor, trata-se de uma cópia reproduzida por Pedro de Valdés, diretor de uma companhia teatral e autor de comédias, que representou a peça cerca de vinte anos após a original ter sido escrita, entre 1613 e 1614. Mujeres Y Criados é uma comédia urbana ambientada na cidade de Madri. A obra narra a relação de duas irmãs, Violante e Luciana, com seus amantes, Claridan e Teodoro, um criado e um secretário do conde Prospero, respectivamente. A vida dos dois casais é abalada quando surgem dois novos pretendentes, sendo um deles o próprio conde, determinado a conquistar Luciana. O outro é o rico Don Pedro, que conta com o apoio de seu pai para se aproximar de Violante. A apresentação oficial do manuscrito acontecerá nos próximos meses na Biblioteca Nacional da Espanha, onde a cópia será preservada e futuramente publicada pelo grupo de especialistas. Uma versão digitalizada já está disponível no site da instituição e servirá de base para a encenação da peça este ano pela primeira vez desde sua estreia no século XVII.

Lope Félix de Veja Carpio nasceu no dia 25 de novembro de 1562, na cidade de Madri, Espanha. Morreu na mesma cidade no dia 27 de agosto de 1635.

Viveu no período em que a Espanha dominava Portugal e suas colônias (1580-1640). Educado por jesuítas, foi logo notado por sua imaginação romanesca e por sua facilidade de compor versos. Em 1583, foi a Lisboa para integrar a esquadra que Álvaro de Barzan preparava para enfrentar os portugueses, que, nos Açores, resistiam aos espanhóis. Cinco anos depois, tornou a embarcar. Desta vez, num navio da Invencível Armada. Nos últimos dias de 1588, desembarcou em Cádiz: era um dos poucos sobreviventes da malograda expedição. De volta à Espanha, transferiu-se para Toledo e passou a estudar na universidade renascentista de Alcalá.

Nesse período, dedicou-se apaixonadamente à atriz Elena Osório. Embora ela fosse casada, os cinco anos de romance que viveram não foram sequer furtivos, pois o marido se ausentava continuamente por longos períodos. À atriz, dedicou a comédia Dorotea, uma de suas obras mais belas. Assim como foi capaz de dedicar versos à paixão amorosa, também planejou e escreveu uma novela pastoril — Arcádia — para satisfazer seu protetor Dom Antônio, duque de Alba. Mas suas melhores criações foram El Último Godo, Las Famosas Asturianas, El Mejor Alcade El Rey, La Desichada Estefania, La Estrella de Sevilha, Lo Cierto Por El Dudoso, El Rei Dom Pedro Em Madrid, Porfiar Hasta Morir, Peribánez y El Comendador de Ocaña, Fuente Ovejuna e muitas outras.

Além do gênero dramático, escreveu novelas em prosa (muitas vezes com versos intercalados), como El Peregrino Em Sua Patria, Las Fortunas de Diana, La Filomena. Também escreveu poemas, como La Hermosura de Angelica, Circe, Mañana de San Juan, La Corona Trágica, San Isidro Labrador, Romancero Espiritual, Rimas Sacras, Laurel de Apolo, além de numerosas poesias líricas. San Isidro Labrador exerceu enorme influência sobre os seus contemporâneos. O poema foi encomendado pelos dominicanos, que pretendiam a canonização de Isidro de Madri, cultuado pelo povo espanhol desde o século XII. O poema foi publicado em 1599 e, em treze anos, recebeu cinco edições, fato notável para a época. Além disso, compôs a Comédia Famosa de San Isidro Labrador de Madrid. Em 1620, conseguiu-se a beatificação do padroeiro de Madri e, dois anos depois, a sua santificação.

Entre suas obras há inúmeras que versam sobre assuntos portugueses, com destaque para El Nuevo Mundo Descubierto, uma comédia em verso que narra a viagem de Cristóvão Colombo, que se inicia com a recusa do rei de Portugal em patrocinar a expedição. Também o Brasil sofreu frequentes alusões em sua obra. Chegou mesmo a escrever a comédia El Brasil Restituído para comemorar a vitória, em 1625, de Dom Fradique de Toledo sobre os holandeses que se haviam instalado na Bahia. Cópias manuscritas desta comédia encontravam-se na Biblioteca Nacional de Madri, no Museu Britânico e na Biblioteca de Nova York.

A vida, a obra, os amores e os ódios do autor foram extraordinários. Tinha intensas e rápidas paixões amorosas e constantes crises religiosas. Seus contemporâneos, quando queriam se referir a qualquer coisa boa ou sublime, diziam “é uma coisa de Lope”. Os biógrafos consideram difícil determinar em suas obras onde termina a ficção poética e começa a recriação de sua própria vida, ou vice-versa. Antes e depois dele, não há nenhum outro autor que se tenha entregado tão completamente à poesia. Afirma-se que o anseio de criar o impedia a viver cada vez mais intensamente. Elaborou um teatro eminentemente popular, que respondia à solicitação das classes altas e das camadas populares, incorporando o significado de Gil Vicente ao de Juan de la Cueva e de Lope de Rueda.

Seu teatro deu relevo dramático ao homem da época, mas não o encerrou entre quatro paredes, como faziam os clássicos franceses: colocou-o num cenário amplo e livre. Nesse teatro, o lavrador conta sempre com o apoio do rei, máximo justiceiro (como, por exemplo, na trilogia  Fuente Ovejuna, El Mejor Alcade El Rey e Peribánez), e a mulher é encarada como um ser a quem se precisa conceder certa independência (como em El Mayor Impossible). Mas foi em suas engenhosas comédias urbanas, inspiradas por Madri, que se destacaram os mais diversos e curiosos tipos psicológicos. Versificando com perfeição também em latim, italiano e português, jamais abandonou a simplicidade inicial de seu estilo, totalmente oposto ao gongorismo, que, na época, começava a transformar a literatura espanhola. Pela quantidade de seus trabalhos e pela força da sua produção dramática, Miguel de Cervantes o apelidou “o monstro da natureza”. E o poeta Ezra Pound afirmou que o teatro moderno da Europa veio dele e da Espanha.

lope p1No Brasil, o cineasta Andrucha Waddington, realizou em 2009 o filme Lope, que conta parte da história do escritor espanhol. No filme, Lope (Alberto Ammann) é um jovem poeta ambicioso e um eterno apaixonado. Vivendo mais o presente do que pensando no futuro, ele se entrega ao amor de duas mulheres e desafia regras que podem transformá-lo de herói a vilão, trazendo a desgraça ou a glória. O filme ganhou o Prêmio Goya nas categorias melhor figurino e melhor canção original. Mas também teve indicações para melhor atriz coadjuvante, para Pilar Lopes de Ayala, melhor cenografia, melhor direção de arte, melhor maquiagem e melhores efeitos especais. Embora realizado em 2009, com orçamento de 35,6 milhões de reais, o filme só estreou no Brasil no dia 4 de março de 2011.


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