Seleção Brasileira de Futebol

O Chile ainda estava de luto em 1962, assolado por um terrível terremoto — 9,5 graus na Escala Richter — que deixara cerca de 6 mil mortos, 2 milhões de feridos e um rastro de destruição por todo o país, em 1960. A Copa do Mundo corria o risco de ser transferida para outra sede quando Carlos Dittborn, presidente da Federação Chilena de Futebol, convocou o comando da Fifa e, com uma frase, convenceu os dirigentes de que tirar o mundial do país seria uma outra tragédia. “Temos de ter a Copa porque não temos nada”.  A frase virou como um mantra para os chilenos, que arregaçaram as mangas e construíram três estádios em tempo recorde em Viña del Mar, Arica e Santiago. O mundial estava garantido.

 

pmc-pel-chileNo dia 21 de maio de 1962, nas asas da Panair Brasil DC7CPP-PDO, a delegação brasileira embarcou para Santiago com 22 jogadores, 20 dirigentes e membros da comissão técnica. Antes de aterrissar em solo chileno, fez uma escala em Brasília para a despedida oficial em um evento na Granja do Torto, com o presidente João Goulart. No desembarque da seleção brasileira no Aeroporto de Santiago, fotógrafos e repórteres correram para registrar a chegada dos campeões mundiais de 1958. Era praticamente o mesmo grupo que havia conquistado a Copa na Suécia, apenas um pouco mais velho. Sete dos 11 titulares tinham mais de 30 anos. A organização da seleção era a mesma. Paulo Machado de Carvalho (foto com Pelé), o “Marechal da Vitória” de 58, chefiava a delegação com a maioria dos assessores de quatro anos atrás.

 

Pelé era a maior aposta do Brasil. O menino, que havia encantado o mundo aos 17 anos, agora estava com 21 e pronto para conduzir o time ao bicampeonato. Todos queriam vê-lo. A seleção havia mudado pouco de 58 para 62. Na zaga saíram Bellini e Orlando e entraram Mauro e Zózimo. No ataque, Coutinho e Pepe, que chegaram como titulares, se machucaram e deram lugar a Vavá e Zagallo. E no comando estava o técnico Aymoré Moreira, que herdou o posto de Vicente Feola, afastado há dois anos por problemas de saúde. O desafio do Brasil era alcançar a marca do Uruguai e da Itália, donos de dois títulos cada e potências do futebol. A epopeia começou por Viña del Mar na estreia diante do México. O Brasil abriu o jogo com Gilmar, Djalma Santos, Mauro, Zózimo e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagalo. E venceu por 2 a 0, gols de Zagallo e Pelé, para um público de 10.848 pagantes.

 

garrincha in1A boa exibição da seleção meteu medo nos adversários. Os campeões do mundo estavam mais fortes, apesar de mais velhos. Pelé voava. No segundo jogo, o susto. Ainda no primeiro tempo, Pelé sofreu uma lesão na virilha após um chute ao gol. Como não eram permitidas as substituições, o rei se arrastou pelo campo até o final. O empate em 0 a 0 com a então Checoslováquia, para 14.903 pagantes, em Viña del Mar, acabou sendo um ótimo resultado. Mas e agora, sem Pelé? A contusão era séria e o craque estava fora da competição. Alguém precisava assumir a seleção. E aí apareceram Amarildo e Garrincha. No terceiro jogo, ainda em Viña del Mar, com público de 18.715, a seleção não jogou bem, mas derrotou a Espanha por 2 a 1, dois gols de Amarildo, o último aos 41 minutos em cruzamento de Garrincha.

 

No quarto jogo, Garrincha (foto) barbarizou. Contra a Inglaterra, o genial ponteiro de pernas tortas fez dois gols e Vavá, um, na vitória por 3 a 1, para um público de 17.736, em Viña del Mar. O próximo desafio seria complicado. O Chile, empurrado por 76.500 torcedores no Estádio Nacional, poderia acabar com o sonho do bi. Então Garrincha fez novamente a diferença. Fez dois gols no primeiro tempo. Vavá fez outros dois no segundo e o Brasil venceu por 4 a 2. Cansado de apanhar, Garrincha revidou um pontapé e foi expulso. Ficaria fora da final do torneio. Os cartolas brasileiros conseguiram reverter a situação na Fifa e garantiram a escalação do craque na final diante da Checoslováquia.

Há exatos 50 anos, no dia 17 de junho, a seleção brasileira vencia os checos por 3 a 1, depois de sair perdendo, com belos gols de Amarildo, Zito e Vavá, no Estádio Nacional de Santiago com público de 69 mil torcedores. Brasil bicampeão do mundo.Na volta para casa, os jogadores foram recebidos por cerca de 2 milhões de pessoas no Rio de Janeiro. Os “novos velhos” heróis desfilaram em carro aberto com a taça Jules Rimet diante da multidão inebriada. A festa se alastrou pelo país afora em um verdadeiro carnaval fora de época. Quando acabou o desfile, por volta das 23h30, no dia 18 de junho, Garrincha ganhou do governador da Guanabara, Carlos Lacerda, um mainá — ave que é capaz de imitar vozes de outras aves e até palavras. Feliz da vida, o craque foi cuidar do seu pássaro. Nem sabia que o futebol mundial havia se rendido ao seu enorme talento (fonte: O Estado de S. Paulo). 


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