sergio porto 20171030Crônica De Bar
Stanislau Ponte Preta — 26/11/1966

Morava bem em frente ao boteco, o Ândocles! Todos os frequentadores do canavial o conheciam. Sim, porque era um autênico canavial aquele botequim, onde a cana escorregava firme e toda noite fornecia à boêmia local um pelotão de caneados. Alguns iam curtir o porre em casa, outros continuavam a sofrer a influência da cana e acabavam encanados. Ândocles estava mais para o primeiro do que para o segundo caso. De resto, era um porrista ameno. Tomava umas duas ou três e ficava de pressão, muito falante, contando casos. Em dado momento, a mulher aparecia na janela, em frente, e chamava: — Ândocles, vem pra casa!

Ele respondia — Tô indo, nega!  Olhava em volta e, invariavelmente, informava o que todos já sabiam: — É a minha patroa! Uma chata, a patroa do Ândocles. Dessas velhotas de bigode, verruga no rosto e gordona, que a gente tem a impressão de que não é bruxa porque excedeu o peso à categoria. Se montasse numa vassoura, quebrava o cabo. Ainda por cima, mandona, com mentalidade de sargento reformado de cavalaria. Diziam, inclusive que, de vez em quando, quando o Ândocles se rebelava pouquinha coisa, sarrafeava o coitado. A turma do boteco gostava dele. Era um velhote culto. Pelo menos para aquela turma, era um Rui Barbosa.

Contava histórias, explicava coisas, tirava dúvidas, tudo com modéstia, sem botar a menor bronca. Uma vez explicou para os amigos quem fora Ândocles. — É uma lenda — esclareceu. Logo se fez silêncio no boteco para que prosseguisse. Ele tomou mais um gole da que matou o guarda e prosseguiu: — Ândocles era um escravo. Um dia fugiu, ou melhor, não sei bem se fugiu. O que eu sei é que teve que se esconder numa gruta. O problema é que lá dentro tinha um leão. Era um “big” leão, feroz às pampas. O xará ficou besta por não ter sido atacado. Aí, quando o seu olhar se acostumou com a escuridão da gruta, reparou que o leão estava com um grande espinho atravessado numa das patas. Tomou mais um gole e pediu ao português do balcão que botasse mais uma.

Servido, bicou, lambeu os beiços e continuou: — Ândocles, de tanto sofrer, não podia ver ninguém sofrendo. Nem mesmo um leão. Por isso, se aproximou devagarinho e conseguiu arrancar o espinho da pata do leão, que desapareceu gruta afora, todo contente.  Os tempos passaram. Um dia, Ândocles, por ser católico, foi aprisionado e jogado na arena para os cães comerem. Aí, parou de novo, para respeitar uma técnica de suspense muito comum em novela de televisão. Os olhares dos companheiros de marofa estavam postados nele. — Eu sou como o Ândocles da lenda. Agora mesmo, vendo vocês tão interessados, já estou com pena de ter interrompido a história. Segundo eu sei, os algozes do Ândocles vibraram quando viram aquele leãozão caminhar urrando para ele. Mas, aí, foi aquele pasmo.

O leão era o mesmo da gruta. Reconhecendo o seu benfeitor, começou a lambê-lo e a fazer festinha, que nem cachorrinho de francesa. — Quem lhe contou esta história? — perguntou um outro cachaça.  — Bernard Shaw — respondeu Ândocles, sabendo que, ali, ninguém conhecida o dramaturgo irlandês. Houve um silêncio comovido entre os bêbados. Um silêncio muito comum em comunidade de bêbados, que são pessoas que se comovem com muita facilidade. Um velhote de nariz vermelho, muito mais vermelho de conhaque do que de gripe, chegou a puxar um bruto lenço de quadrados para assoar. E o silêncio ainda permanecia, quando ouviu-se um grito medonho à porta: — Ândocles, seu capadócio... bebendo sem permissão!?!? Todos se viraram a um só tempo: era a patroa do Ândocles. — Querida — disse ele.

Mas a velhota estava possessa e esbravejou: — Aproveitando a minha ausência para vir beber sem ordem? Já para casa, rato imundo. Ândocles colocou o copo em cima do balcão e nem pensou em pagar a despesa.  Saiu passado, com a vergonha que a implacável sargenta aumentou em dar um safanão em sua nuca, que o fez perder o equilíbrio e ajoelhar na calçada. Ândocles levantou-se e correu cambaleante para dentro de casa, com ela atrás. Na sua nobreza, os bêbados todos se voltaram para o balcão, para não verem mais aquele vexame. O velho do nariz vermelho murmurou constrangido: — E pensar que ele fez tudo na vida por essa vaca! Começaram a beber devagar, outra vez. Só quem estava de frente para os acontecimentos era o português do balcão. Esperou que a porta se fechasse atrás do casal, do lado de lá da rua, e falou, com desprezo no sotaque: —Até o leão foi mais humano que esta gaja!

Crônica escrita pelo jornalista Sérgio Porto (Stanislau Ponte Preta), publicada na revista O Cruzeiro, de 26/11/1966


 


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