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Em “Boêmios Errantes”, vagabundos riem da própria miséria

 boemios-errantes in1Tortilla Flat
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A novela de John Steinbeck oi traduzida para o português sob o nome Boêmios Errantes. É um romance leve, divertido e com doses de dramaticidade, trazendo como personagens principais Danny e seus amigos em seu dia-a-dia nada produtivo. Danny herda uma propriedade, se tornando rapidamente o centro dos acontecimentos em Tortilla Flat. Não sendo por natureza um bom empreendedor, o mesmo trata de dilapidar esse patrimônio juntamente com seus companheiros, seja para matar a interminável sede de vinho ou para conseguir uma moça interessante. Ao longo do percurso várias figuras passam pela vida de Danny, sempre participando de seus dias de ócio e de não raras confusões. Steinbeck utilizou-se de uma boa dose de seu tom irônico aliada a um humor inteligente, dando vida a este livro e tornando-o um de seus clássicos. Foi adaptado para o cinema nos anos de 1940 com, Spencer Tracy no papel principal.

boemios-errantes in2O escritor John Steinbeck era ainda pouco conhecido em 1935, quando foi lançado Boêmios Errantes, romance que lhe valeu excelentes críticas na imprensa, além de ter vendido bastante bem. Ainda hoje há grandes divergências sobre a significação e a construção do livro. Os primeiros críticos que a ele se referiram tinham a impressão de que o escritor se libertara de uma alternativa, glorificando o primitivismo e a bestialidade, opostos aos terrores psíquicos da vida moderna. Donde lhe adveio, em consequência, seu espírito irrefletido. Porém, todos os críticos estão de acordo em ver no livro uma obra de humor muito divertido.

Entretanto, Boêmios Errantes, entrecortado de incidentes cômicos e respirando a alegria de uma vida simples é, no fundo, uma sátira aos conceitos burgueses dos Estados Unidos, que transformaram as pastagens celestes em uma comunidade sem alma. Os paisanos do livro apenas extraem da derrota uma vitória passageira, pela sua habilidade em levar às últimas e extremas consequências os valores que os degradam. Seu parasitismo surge assim como uma consequência lógica. O julgamento que sofrem da parte do autor — um julgamento risonho e pleno de simpatia — é uma condenação moral dos paisanos em particular e da cultura americana em geral (Brom Weber, da Universidade de Minnesota).
 

john-steinbeck in2Nota de introdução do autor

Quando este livro foi escrito, não me ocorreu que os paisanos fossem curiosos ou singulares, desanimados ou desconsolados. São gente que eu conheço e amo, gente que se funde perfeitamente bem no seu habitat. Nos homens isto é chamado filosofia — e é uma bela coisa. Tivesse eu sabido que estas histórias e esta gente seriam consideradas singulares, acho que jamais as teria escrito. Lembro-me de um garoto, um amigo de escola. Chamávamo-lo piojo. Era moreno, belo, gentil. Não tinha pai nem mãe — tinha apenas uma irmã mais velha, que amávamos e admirávamos. Nós a chamávamos, com muito respeito, uma mulher-recebia-visitas. Tinha as faces mais rosadas da cidade e fazia sanduíches de tomate para nós, algumas vezes.

Ora, na pequena casa em que ela e o piojo viviam, a torneira da pia estava quebrada. Um pedaço de pau fora enfiado no encanamento para que a água não escapasse. A água para cozinhar e para beber era retirada da privada. Havia, no chão, uma panela de estanho, com um longo cabo, para retirar água. Quando a água estava no fim, bastava puxar a descarga e encher novamente a privada. Ninguém tinha permissão para usar a privada como privada. Uma vez, quando atiramos uma turma de rãs dentro da privada, a mulher-que-recebia-visitas pintou o diabo conosco e, depois, abriu a descarga, afogando os nossos bichos no esgoto. Talvez isso seja chocante. Mas não me parece chocante. Talvez seja curioso — que Deus nos ajude!

Estive submetido à decência por muito tempo e ainda não posso pensar na mulher-que-recebia-visitas como (oh, a mais terrível de todas as palavras!) uma prostituta, nem nos inúmeros “tios” do piojo, esses homens alegres que por vezes nos davam níqueis, como seus fregueses. Tudo isso vem à baila para dizer que isto não é uma introdução, mas uma conclusão. Escrevi estas histórias porque eram histórias verdadeiras e porque me agradavam. Mas os literatos receberam esta gente com a vulgaridade de duquesas que se divertem e se lamentam por causa dos camponeses. Estas histórias estão na rua — e nada posso fazer. Mas nunca mais submeterei ao contato vulgar das pessoas “decentes” essa boa gente da alegria e da bondade, dos desejos honestos e dos olhares diretos, da cortesia para além da polidez. Se lhes causei algum mal, contando algumas das suas histórias, que me perdoem. Isso não acontecerá novamente. Adiós, Monte (John Steinbeck, junho de 1937).
 

boemios-errantes in3Trecho — Capítulo XVII

A morte é um assunto pessoal, que desperta pesar, desespero, fervor ou uma calorosa filosofia. Os funerais, por outro lado, são funções sociais. Imagine-se uma pessoa ir a um enterro sem primeiro lavar o automóvel. Imagine-se uma pessoa ficar de pé ao lado de uma sepultura sem estar vestida com o melhor terno preto e calçada com sapatos bem lustrados. Imagine-se uma pessoa mandar flores para um defunto sem cartão para provar que essa pessoa fez o que devia. Em nenhuma instituição social o ritual codificado é mais rígido do que nos funerais. Imagine-se a indignação, se o ministro do Senhor alterasse o seu sermão. Considere-se o choque, se, na vigília do morto, só se usasse essas terríveis e torturantes cadeiras amarelas de assento duro. Não morrendo, um homem pode ser amado, odiado, lamentado, ou fazer falta. Mas, uma vez morto, ele se torna o principal ornamento de uma complicada e formal comemoração social.


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