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Heinrich Heine: entrou na civilização europeia através da literatura

heinrich-heine in1Heinrich Heine
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Fez os primeiros estudos em sua cidade natal. Quando terminou o curso, seus pais o entregaram aos cuidados de um tio, dono de grande casa bancaria de Hamburgo. Queriam que ele aprendesse os segredos das finanças e obtivesse uma profissão. O que significou profunda contrariedade para ele, que não tinha qualquer vocação para tratar com dinheiro. Mas seus aborrecimentos dessa época tinham também outros motivos: principalmente o amor não correspondido por uma prima chama Amália. Após muito esforço, o rapaz conseguiu permissão do pai para estudar direito na Universidade de Bonn. Nessa cidade, recebeu grande influência de seu professor August Wilhelm Schlegel, um dos maiores representantes do romantismo literário. O contato com o mestre o estimulou a se dedicar à literatura, embora o estudo de direito ainda fosse sua preocupação mais forte.

 

Deixando Bonn, e após breve permanência em Göttingen, partiu para Berlim, onde publicou, em 1821, seu primeiro volume de Poesias, bem recebido nos salões literários. E em 1823 publicou Intermezzo Lírico, livro em que já aparecem as características que marcarão grande parte de sua obra: impregnados de grande dose de ironia. Contudo, o sucesso não eliminou a preocupação do poeta com a sobrevivência futura. Decidido a se tornar- independente, voltou a Göttingen, onde em 1825, terminou seus estudos. Já formado, fez uma longa viagem de descanso pelo Maciço de Harz, na região central da Alemanha. Na volta, resolveu ingressar na Igreja Luterana. Ao mesmo tempo em que tentava se integrar na sociedade alemã, continuava os trabalhos literários. O sucesso definitivo veio com o Livro de Canções (1827).

 

Numa parte da obra, faz a descrição (sarcástica e sentimental) de sua viagem pelo Harz, lançando os fundamentos de um novo gênero literário: a narração espirituosa, interrompida por versos de amor. Ao lado de belas descrições de paisagens, aparecem cenas amorosas e, quando se refere ao falso patriotismo alemão e à rotina das universidades, uma descrição mordaz. É assim que ele vê a cidade de Göttingen: “De um modo geral os habitantes de Göttingen podem ser divididos em estudantes, professores, filisteus e bestas, quatro estados que não estão, porém, nitidamente separados”. Mesmo nos temas sentimentais, o poeta ironiza a si mesmo, lamenta o pôr-do-sol, mas em seguida afirma: “É uma peça antiga, amanhã o sol voltará”. É como se um Heine glosador comentasse as atitudes do Heine romântico. Ao tratar do amor infeliz, por exemplo, afirma que os belos sentimentos não levam a nada num mundo de proprietários, onde tudo pode ser vendido e comprado. Seus escritos politizados deram início à moderna literatura alemã.

 

heinrich-heine in2A partir de 1827, passou a se dedicar também ao jornalismo. Mas a Alemanha, onde vigoravam o absolutismo e uma férrea censura, não era um lugar propício para a prática do jornalismo profissional. Assim, foi para Paris. Em julho de 1830 o povo francês, revoltado, derrubou a dinastia dos Bourbons e o rei Luís Filipe, apoiado pela burguesia, assumiu o trono. A capital francesa se tornou então o centro dos liberais alemães. Ele chegou à capital da França em 1831. Ali entrou em contato com alguns dos intelectuais mais importantes da época: escritores como Honoré de Balzac, George Sand, Louis Adolphe Thiers e compositores como Hector Berlioz e Frederic Chopin.


Correspondente de jornais alemães, enviava para sua terra notícias sobre o movimento político e literário da França. Mais tarde suas reportagens foram reunidas em alguns volumes: Situações Francesas (1833), O Salão (1835/40) e Lucélia (1854). Paralelamente ao trabalho de correspondente, informava os franceses sobre a situação intelectual e política da Alemanha. Nos livros A Escola Romântica (1833) e Sobre a História da Filosofia e da Religião da Alemanha (1834) explicou aos leitores franceses o significado dos novos movimentos filosóficos alemães, sendo dos primeiros a reconhecer o sentido revolucionário da filosofia de Georg Hegel. Nesses livros e nas Novas Poesias (1844), fez ferozes ataques à nobreza, ao clero, aos governantes e a alta burocracia da Alemanha. Por essa razão foi incluído entre os autores da chamada “Jovem Alemanha”, cujos livros tinham circulação proibida no território da federação alemã. Apesar do impedimento, o público alemão não perdeu contato com seus trabalhos, pois seu editor souber enganar as autoridades.

 

Por causa do poema Alemanha um Conto de Fadas de Inverno (1844) – a sua melhor sátira política —, o escritor foi proibido de entrar na Prússia. No mesmo ano de publicação desse trabalho, tornou-se amigo de Karl Marx. Para a revista dirigida por este filósofo, escreveu numerosas poesias políticas, sardônicas na maior parte. Mas escreveu também um poema sério sobre os tecelões da Silésia, onde prenunciava uma futura revolução social. Aliás, já havia anunciado anteriormente suas convicções políticas: “eu sei bem (...) que a nobreza e a Igreja não são os únicos inimigos da revolução, (...). Odeio mais ainda a aristocracia burguesa”. Gravemente enfermo da espinha dorsal, permaneceu de 1848 a 1856 imobilizado no leito (“enterrado na sepultura de colchões”, como costumava dizer). Assim, não pôde acompanhar os movimentos de 1848 na França, quando os socialistas reivindicaram profundas reformas sociais. Quando doente, afirmava que estava tratando de reconciliar-se com Deus, cuja função (dizia o poeta) era exatamente a de perdoar. Foi um dos maiores poetas de todo o mundo e o primeiro representante do jornalismo moderno da Alemanha.


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