claradosanjos-capa129 de outubro de 2011
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Em uma das cenas iniciais de Clara dos Anjos, adaptação para quadrinhos do romance homônimo de Lima Barreto, o personagem Cassi Jones — um caricato sedutor carioca — é flagrado na cama alheia, prestes a deflorar uma jovem. Munido de uma pistola, o pai da moça esbraveja: “Indecente! Eu mato... Dou-lhe um tiro na boca!”. A frase não estava no romance original, mas o roteirista Wander Antunes a usou porque soava gostosa: “Pensei: ‘Agora esse livro é meu. E tudo o que o Lima Barreto narra em terceira pessoa vai ser encenado’”.

 

Antunes assina com o ilustrador Marcelo Lelis, 44, a adaptação daquele que foi o último romance de Barreto, publicado após sua morte. Recriado em aquarela sobre nanquim, Clara dos Anjos foi lançado em novembro de 2011 pela Quadrinhos na Cia. O posfácio é de Lilia Schwarcz. Barreto ainda escrevia o livro quando morreu de infarto, em 1922. Deixado incompleto, o livro retratava o subúrbio carioca onde morava, ao qual ele se referia, de forma ácida, como “o refúgio dos infelizes”.

Na trama, Clara é uma jovem mulata engravidada pelo conquistador Cassi Jones. Desassistida e maltratada por causa de sua cor (“A culpa foi sua, negrinha!”, condena a mãe de Jones), chega ao fim da história “grávida, pobre e preta”, conforme escreve Schwarcz.

 

O Lima Barreto era um crítico da elite”, diz o desenhista Lelis, que pesquisou a iconografia do Rio de Janeiro nos anos 20, para reproduzir a cidade com fidelidade. Antunes, em entrevista à Folha de S. Paulo, concordou: “Ele tinha raiva — e eu gosto de quem tem raiva”. Após um ano e meio debruçado sobre o romance, conclui: “Esse tipo de tragédia ainda não acabou. O subúrbio do Rio continua a ser habitado por pessoas invisíveis”.

 

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Biografia de Lima Barreto

 

 

 

 


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