santo-agostinho c1O livro escrito pelo historiador irlandês Peter Brown foi lançado originariamente em 1967. No Brasil, foi traduzido e lançado pela Editora Record no ano de 2005. Abaixo, a crítica feita na época pelo filósofo Luiz Felipe Pondé para a revista Veja:

Para o leitor que não é especializado em teologia, Santo Agostinho pode parecer um personagem obscuro, distante no tempo — como todo santo, uma incógnita. A biografia de Santo Agostinho (tradução de Vera Ribeiro; Record; 672 páginas; 69,90 reais), do historiador irlandês Peter Brown, é útil para aproximar Santo Agostinho de tal leitor. Brown ilumina grande parte da trajetória desse fundador da Igreja Católica, ainda que com irregular sucesso de síntese. Ele opta por uma narrativa em que há poucas referências à fina discussão teológica de Agostinho — prefere retratá-lo apenas como um fundador da hierarquia católica. Mas em um ponto Brown faz justiça a Agostinho: a biografia revela a importância fundamental do autor de Confissões para a concepção moderna de subjetividade. Não por acaso, Agostinho tem sido comparado a Sigmund Freud, o fundador da psicanálise.

santo-agostinho in2Uma das características interessantes da biografia é apresentar o contexto histórico em que atuou o santo filósofo. Agostinho viveu entre os anos 354 e 430 e foi bispo de Hipona, no norte da África, onde hoje fica a Argélia — era o lado provinciano do Império Romano. De família pobre, filho de pai pagão e mãe cristã — Santa Mônica, que exerceu grande influência sobre a conversão do filho —, Agostinho recebeu razoável educação em retórica, literatura clássica latina e filosofia. Foi um brilhante professor de retórica até se envolver com a filosofia platônica, o maniqueísmo e, finalmente, o cristianismo católico romano.

Teve um filho e viveu com uma mulher, até abandoná-la pela vida religiosa. Consagrou-se já em vida como uma das maiores referências do pensamento cristão emergente. Para a posteridade, só Santo Tomás de Aquino, no século XIII, se equipara a Agostinho como um pilar da teologia católica. E não só para a católica: atormentado pela questão da origem do Mal, Agostinho elaborou — em polêmica com Pelágio, outro teólogo da época — uma teoria da graça divina que exerceria grande influência sobre a reforma protestante de Lutero e Calvino, no século XVI.

Entre o político administrador do cristianismo nascente e o teólogo do mal e da graça, Brown se sai bem no primeiro caso. A discussão teológica do biógrafo é irregular. Faz uma razoável reconstituição da crise juvenil de Agostinho, então um adepto do “cristão heterodoxo” Mani, em sua migração para o catolicismo. Na doutrina dualista de Mani — o maniqueísmo —, o mundo material era produto do princípio do Mal, a ser combatido pelos filhos da Luz, o princípio do Bem. A natureza prática e diligente de Agostinho logo percebeu a inviabilidade das exigências excessivamente idealistas do maniqueísmo perante o mundo real.

Mas a importante polêmica contra Pelágio é um momento infeliz da biografia. Pelágio acreditava numa natureza humana sem a maldição do pecado original. Agostinho, ao contrário, não tinha a mesma confiança no alcance do livre-arbítrio humano: sem a ação da graça divina, a salvação seria impossível. Essa controvérsia fundou a reflexão cristã latina sobre a relação entre a natureza humana e o mal. Sob a pena de Brown, porém, toda a discussão parece uma reles disputa por poder conduzida por um Agostinho dogmático.

peter-brown in1Um dos melhores momentos de Brown é o modo como descreve a importância de Agostinho para a posterior ideia de subjetividade moderna. Na descrição autobiográfica das Confissões, Agostinho cria a noção de espaço interior como campo da verdade essencial do homem (verdade e Deus devem ser buscados na alma, e não no mundo exterior). Esse método “interior” será preservado na literatura mística cristã medieval e moderna e na observação moral severa de si mesmo levada a cabo pelos protestantes a partir do século XVI. Chegaria ao existencialismo de Kierkegaard, no século XIX, e com este ao pensamento moderno em psicologia. Agostinho viveu há mais de 1 500 anos — mas continua atualíssimo.

O AUTORPeter Robert Lamont Brown nasceu na cidade Dublin, Irlanda, em 1935. Filho de uma família protestante, foi educado em Shrewsbury School e New College, Oxford. Lecionou na Universidade de Oxford, na Universidade de Londres e na UC Berkeley, bem como a Universidade de Princeton, onde ele é atualmente professor de História. É versado em cerca de quinze idiomas. Escreveu extensa obra histórica, a partir da estreia com a biografia de Santo Agostinho. Entre seus principais livros estão: O Mundo da Antiguidade (1971), O Culto aos Santos (1981), Corpo e Sociedade — Homens, Mulheres e Renúncia Sexual no Cristianismo Primitivo (1982), Poder e Persuasão — Rumo ao Império Cristão (1992), Autoridade e Sacramento — Aspectos da Cristianização do Mundo Romano (1995); Pobreza e Liderança no Antigo Império Romano.


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