banner-topo

Republicados dois romances de William Faulkner

william-faulkner in102 de agosto de 2012
linha-gif

A Editora Benvirá está colocando nas prateleiras dois extraordinários romances William Faulkner: o sofrido O Intruso (1948) e o esfuziante Os Invictos (1962), seu último livro no gênero. Aliando-se a esses títulos a mesma editora anuncia para breve a trilogia Snopes (1940-1959).  Há, ainda, complementando a fartura do escritor nas livrarias do país, clássicos como Luz em Agosto (1932) e O Som e a Fúria (1929), ambos editados pela Cosac NaifyO universo de Faulkner é coeso, segundo o crítico Vinícius Jatobá, do jornal O Estado de S. Paulo.

 

O Intruso reforça a visão de expiação tão evidente no universo do escritor: Lucas Beauchamp, um ex-escravo que se torna fazendeiro, é encontrado desacordado com uma arma na mão e com um cadáver próximo. É o bastante para que a população deseje seu linchamento público. Chick Mallison, personagem recorrente, luta para provar a inocência de Lucas, mas logo encontra a realidade: não importa se é ou não inocente. Ele é um negro — e isso basta para provar sua culpa e merecer ser punido. Já Os Invictos é o mais divertido dos livros do escritor: após roubarem um automóvel, três jovens amigos partem para uma aventura picaresca ao longo do Rio Mississippi. O romance constrói uma narrativa de iniciação em que o leitor pode aprender com luxo de detalhes tudo sobre assaltos a carros, cavalos e potros, fugas da polícia em alta velocidade, prisões bolorentas e bordéis ruidosos, da maneira mais irresponsável, criminal e generosa possível.

 

william-faulkner in2Síntese biográfica

 

WILLIAM CUTHBERT FAULKNER nasceu no dia 25 de setembro de 1897 na cidade de New Albany, Mississipi. Morreu no dia 6 de julho de 1962 na cidade de Byhalia, Mississipi.

 

Recebeu o Nobel de Literatura de 1949. Posteriormente, ganhou o National Book Awards em 1951, por Collected Stories, e em 1955, pelo romance Uma Fábula. Foi vencedor de dois prêmios Pulitzer, o primeiro em 1955 por Uma Fábula e o segundo em 1962 por Os Desgarrados. Utilizando a técnica do fluxo de consciência, consagrada por James Joyce, Virginia Woolf, Marcel Proust e Thomas Mann,  narrou a decadência do sul dos Estados Unidos, interiorizando-a em seus personagens, a maioria deles vivendo situações desesperadoras no condado imaginário de Yoknapatawpha. Por muitas vezes descrever múltiplos pontos de vista (não raro, simultaneamente) e impor bruscas mudanças de tempo narrativo, a obra faulkneriana é tida como hermética e desafiadora.

 

Nasceu trinta anos após o sul dos Estados Unidos ter sido derrotado na Guerra da Secessão. Antes, toda a região apresentava uma rígida estrutura social, construída sob a supremacia dos brancos de origem inglesa e religião protestante. Assim sendo, a tradição puritana e colonial marcou-o em todos seus aspectos econômicos, políticos e religiosos. Em 1861, com a Guerra da Secessão, desmoronou todo um universo familiar de negros e brancos. Durante quatro anos, o sul foi devastado, desfazizeramk-se a delicadeza e as maneiras gentis e instaurou-se a degeneração moral e física dos poor White (brancos pobres) e das famílias arruinadas pela abolição. Cresceu em meio a esse ambiente, que se refletiu marcadamente em sua obra.

 

Não tentou escrever nem reproduzir a situação do sul decadente. Ao contrário, procurou refazê-la, reconstruí-la. Através de uma incansável reconstituição de fatos e pessoas, trabalhou em busca das raízes profundas. Descendia de antiga e ilustre família sulista à qual pertencem diversos políticos. Seu avô, William C. Falkner (o u foi acrescentado pelo escritor) foi herói da guerra civil, construiu uma linha de estrada de ferro e foi morto depois de sair vencedor de uma eleição local. Ele é retratado pelo autor como o velho Coronel Sartoris do romance Sartoris (1929) e em várias novelas. Também seu avô, banqueiro, e seu pai, comerciante, são transformados em personagens em algumas novelas e em Os Desgarrados.

 

Abandonou os estudos para trabalhar no banco do avô. Propenso à melancolia e à solidão, escrevia poemas, lia e tentava pintar, mas era amigo de Phil Stone, advogado que tinha relações com os jovens escritores T. S. Eliot, Robert Frost, Ezra Pound e Sherwood Anderson. Por medir somente um metro e sessenta centímetros de altura, foi recusado pelo serviço militar americano e acabou por alistar-se na força aérea canadense, mas não chegou a participar da Primeira Guerra Mundial na Europa. Depois de passar um ano na Universidade do Mississippi, em Oxford, onde estudou inglês, francês e espanhol, foi trabalhar em uma livraria em Nova York. Logo estava de volta a Oxford, onde exerceu as profissões de carpinteiro, pintor de paredes e chefe dos correios e publicou seu primeiro livro, a coletânea de poemas The Marble Faun, (1924). No ano seguinte, partiu para Nova Orleans, onde conheceu Sherwood Anderson, a única influência literária que ele admite ter tido. Escreveu artigos para jornais e revistas e publicou o primeiro romance, Paga de Soldado (1926).

 

Tendo se estabelecido definitivamente em Oxford, casou-se com Estela Oldham em 1929 e publicou Sartoris, a primeira obra passada no mítico Condado de Yoknapatawpha, cenário da maior parte de suas obras subsequentes. Nos anos seguintes publicou seus principais livros, aqueles com os quais receberia, lentamente, o respeito da crítica, mas não o favor dos leitores: de toda sua produção, somente Santuário (1931) e Os Desgarrados foram sucesso de público. Passou a intercalar períodos de recolhimento com outros em Hollywood, com quem sempre teve uma relação conturbada, mas a quem recorria quando precisava de dinheiro. Lá trabalhou como roteirista, habitualmente com Howard Hawks. Comprou uma fazenda com o que ganhou no cinema, em 1936, mas passava o tempo caçando, pescando e ouvindo as lendas das pessoas humildes de sua terra.

 

Viajou pelo Japão, França e Filipinas, participando de encontros de escritores ou dando palestras. Foi nomeado Escritor Residente da Universidade de Virgínia, onde passou a viver parte do ano. Em 1950, enquanto arava a terra, recebeu a notícia de que ganhara o Prêmio Nobel referente ao ano anterior. Eterno tímido, costumava dizer que preferia a companhia de seus amigos caçadores e da gente simples de sua fazenda ao brilho das rodas literárias. Tornara-se escritor movido por uma força interior que lhe proporcionava, nos melhores momentos, alçar-se à altura de seus autores prediletos. Afirmava que não saía de casa sem levar William Shakespeare em um bolso e o Antigo Testamento em outro. Faleceu de complicações cardíacas em 1962, logo depois de lançar seu último romance, Os Desgarrados.



© 2013 Tio Oda - Todos os direitos reservados