guerrero 160220Ai, Que Sono!

Numa cidadezinha do Deserto de Atacama, no Chile, onde a população é de mais ou menos oito mil almas, mas o estádio de futebol tem capacidade para vinte mil pessoas, iriam se entrechocar as equipes do Club Desportes Cobresal e do Sport Club Corinthians Paulista. Quanto à cidadezinha de El Salvador, ela surgiu de um acampamento mineiro. A extração de cobre das minas locais começou em escala industrial em 1959, quando chegaram por lá empresas norte-americanas. Mas os povos atacameños tiveram contato com o metal há mais de mil anos. O estádio futebolístico tem dimensão desproporcional em relação à cidade porque, nos dias de grandes (?) jogos, acorrem para lá torcedores de toda a região.

Partida válida pela Taça Libertadores 2016, as diferenças entre os dois times também eram abissais. A equipe da casa, modestíssima, já estava satisfeita apenas por poder entrar na disputa do torneio continental. Os brasileiros, por sua vez, com estrutura milionária, entrou para ganhar a competição. Entretanto, nos minutos iniciais da partida, parecia que tudo entre os dois era igual. Principalmente na ruindade. As câmeras exclusivas da TV Globo mostravam torcedores, na arquibancada, bocejando, já pensando no duro trabalho das minas no dia seguinte. O narrador Galvão Bueno, que não estava in loco, sentia, no ar refrigerado do estúdio, que a noite ia ser longa: — Ih, rapaz, o Romero tropeçou na bola e meteu a cara na grama escura do Atacama!

Deuses, por toda parte os há. O fato é que Viracocha — o velho homem dos céus, senhor e mestre do mundo, criador da terra, dos animais, dos homens e possuidor de todas as coisas, ressabiado com o que via, resolveu interferir. Pronto. Apagou as luzes do estádio pra ver se, num pequeno intervalo de tempo, os dois times pudessem recobrar um mínimo de dignidade futebolística. Afinal, deus também gosta de um bom espetáculo. Passados cerca de vinte minutos, as luzes dos refletores começaram, timidamente a voltar. O juiz mandou os times se reposicionarem no campo para dar bola em jogo. Epa! O “coringão” está com um homem a menos. Um, dois, três... dez!

Cadê o Romero — berrou o capitão Felipe Monteiro, do alto dos seus 1m90 de altura e com a aparência de um Francisco Pizarro rodeado pelos seus guerreiros, pronto para dar o bote final no bárbaro Atahualpa, representado naquele momento pelo coitado time do Cobresal, mas que, no momento exato, sente a falta do seu artilheiro. Em seguida, todos começaram a procurar o faltante. Será que o Romero, embora nascido nas planícies paraguaias, deixou o sangue falar mais alto e desertou das fileiras do exército corintiano?

Procura aqui, procura dali, e um dos gandulas da partida foi encontrar o galante Ángel Rodrigo Romero Villamayor sossegadamente dormindo debaixo de uma marquise. Estava tal qual um Abelardo sonhando com a amada Heloísa, um Romeu cheirando as madeixas da Julieta ou mesmo um Adônis sendo “perseguido” pela deusa Afrodite. Voltando à cena: o Romero havia tropeçado na bola e metido a cara na grama. Um pouquinho após, as luzes apagaram. Espertamente, pensou lá com os seus botões (figurativamente, é óbvio, pois a indumentária corintiana não tem botões; ainda não...): “Vou tirar uma soneca, porque essa luz vai demorar...” E foi, impávido, mas não colosso!

Romero, acorda Romero — gritou o comandante Adenor Leonardo Bachi, que todo mundo chama de “Tite”, um apelido (ou praga) dado pelo Felipão. O Romero, com o cabelão guarani lhe caindo pelas têmporas, com cara de sonso, ao ver o treinador, pensou que fosse o Gibson Stewart, o “pai” da facção na novela “A Regra do Jogo”.

Quiero la Toia. Qué hiciste con el Toia? — gemeu o deusinho paraguaio. O “Tite”, que é um noveleiro de mão-cheia (ele não admite, claro, mas o Felipão, sempre ele, garante que o gajo é chegado), deu um cascudo na cabeça do dorminhoco:

Saia já daí, Romero. Você não é o Alexandre Nero, não, seu safado. Tu num tá numa novela, não. Tu tá num campo de futebol e tem de voltar pra jogar, tchê. Gemeu o homenzinho:

Asi que quiero Gil. Donde está el Gil?

O Gil tá na China — retrucou, desanimado, o treinador, o filósofo, o fala muito dos pampas. Aí, “Tite” descobriu também que é psicólogo e um exímio castellano, ao chutar de bate-pronto: — Por casualidad no sirve Elias?

E o Romero, que tem “anjo” no nome e “maior” no sobrenome, levantou-se, aprumou-se, amarrou o cadarço da chuteira, olhou pra cima pra ver a cara fechada do Felipe e, resolutamente, voltou para o campo para viver um espetáculo que não aconteceu. Devia ter ficado no sono! Por essa, deve ter recebido um feitiço do Viracocha! Na partida seguinte do time, voltou para o banco...

OBS: Embora o fato seja verdadeiro, as cenas são de ficção.


 

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